Queridos irmãos e irmãs religiosos e todos os que têm um ouvido na realidade e outro no coração de Deus

 

Desde muito tempo, antes do terremoto, eu, povo haitiano, espero por você.

Agora que perdi todas as minhas referências familiares, parentes, casa, escola, hospital, igreja, espaços públicos, comércio, e tenho abalada a nação em suas estruturas, agora é que sua presença se faz mais urgente. Eu os convido: parem e olhem minha dor!

Espero por pessoas que tenham a coragem de se por ao meu lado, na pobreza, na miséria e na fome em que me encontro atualmente.

Caminhe comigo experimentando o que experimento, sentindo o que sinto, buscando as minhas buscas, ouvindo meu clamor e meu silêncio.

Espero um coração aberto à escuta das pessoas, da realidade, das necessidades prementes,, do coração dilacerado por todas as perdas.

Espero mãos que se estendam em ajuda material, mãos generosas que custeiem, iniciem e promovam projetos de geração de renda dando oportunidade às famílias de proverem dignamente o sustento de seus filhos e com isso me ajudem a caminhar com minhas próprias pernas, sem que tenha que continuar mendigando.

Espero pés que me ajudem a encontrar caminhos de reconstrução de casas, de organização do país, de projetos sociais que atendam os jovens que não veem perspectiva de futuro nem sentido de vida, e as mães que precisam criar, educar, dar de comer a seus filhos; caminhos que atendam aos que ficaram sem família, sem rumo na vida; caminhos que ajudem a recriar a natureza destruída.

Espero entranhas de misericórdia que me ajude, povo haitiano, a me reconstruir por inteiro, como pessoa, do grande trauma que me enche de medos, e a me reerguer dos escombros, a caminhar de cabeça erguida com toda minha riqueza cultural e originalidade – dons de Deus- a caminhar como irmãos e irmãs, filhos do mesmo Pai.

Tenho sede! Tenho fome! Espero você!

Ir. Rosângela Maria Altoé